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Relatos de Ignácio de Loyola sobre seu mundo real e imaginário

 

 Um dos destaques da programação do 1º Salão do Livro, que se realiza no Carajás Centro de Convenções de Marabá, foi o encontro literário, que reuniu onze escritores da região e de outros Estados, com mediação do escritor paraense Daniel Leite, O último encontro foi com escritor paulista Ignácio de Loyola Brandão, que já tem mais de 40 livros publicados é autor de livros que estão entre os melhores da literatura brasileira.

Muito bem-humorada e contagiando a plateia presente no auditório João Brasil, o também jornalista, falou sobre os tempos da infância, quando teve contato com a literatura. Ignácio contou que começou a escrever porque era feio e precisava de algo para atrair os olhares. “O que a gente quer na vida é que alguém passe a mão na nossa cabeça e olhe com admiração”, disse o escrito, rememorando que lá pelos 7 e 8 anos de vida, nos anos 1940, duas professoras foram fundamentais para torná-lo um romancista: Ruth e Lourdes. Expôs suas memórias afetivas:

“A Ruth morreu há um mês, mas eu até nessa idade, quase 82 anos, ia a Araraquara visitá-las. Quem nessa idade tem a felicidade de falar com a mulher que o ensinou a ler e a escrever? Elas não eram professoras comuns, já davam um ensino diferenciado. Eu era filho de um ferroviário, a gente tinha uma vida remediada e difícil, eu era magro, tímido, feio e introvertido... E as meninas da classe nem me olhavam.  Não tendo namoradas, eu me apaixonei pela Branca de Neve, o filme passou em Araraquara, em 1942, e eu passei a odiar os sete anões, a Branca de Neve era uma escrava dos sete anões. Um dia a professora Lourdes disse: ‘Vamos ler um livro clássico e reescrever do jeito que quiserem’. E explicou o que era imaginação e invenção.

Com essas memórias da infância, o escritor destaca que a literatura é de alguma forma uma maneira de vingança contra as condições de vida.

 “Eu sempre mostrei nas minhas histórias como nós brasileiros lutamos para viver, e é uma vingança contra as condições ruins ou não. Quando a professora leu o que havia escrito, a classe inteira deu uma gargalhada, me olhou, e no recreio espalhou ‘o Ignácio matou os anões’. Todo mundo ficava esperando a minha redação. Nesse momento eu tive a primeira lição de técnica literária da minha vida, quando a Lourdes viu que todos se espantaram e sorriram, ela disse ‘sempre que o final de uma história, de um romance, seja o que for, surpreende, essa história foi bem-sucedida’. Até hoje, 44 livros depois, quando eu termino qualquer conto, eu penso se o final vai surpreender o leitor, está aí (o recado) para quem gosta de escrever ‘pegar o leitor pela última cena ”, aconselhou.

Daniel Leite, mediador, pediu para ele fazer uma relação entre esse menino matador de anões com o “Menino que vendia palavras”, um dos livros de Ignácio, que ganhou três prêmios, entre ele o Prêmio Jabuti “Melhor livro do de Ficção”, em 2008.  Ele contou que esse livro remete ao encontro que teve com o dicionário a partir de uma curiosidade de uma palavra e de perceber que havia várias palavras diferentes, que significavam a mesma coisa, até que o pai o ensinou os sinônimos.  

 “No ano seguinte (após aprender sinônimos com o pai), as minhas professoras ensinaram sinônimos e a cada dez dias elas davam uma lista com dez palavras para a gente trazer o significado. Eu tinha meu pai que lia muito e um dicionário. Eu tirava a melhor nota, na terceira vez, dois ou três amigos me perguntaram ‘podemos copiar teu trabalho’, eu disse ‘pode, desde que vocês me paguem, você é filho do dono da sorveteria, você me dá sorvete. E o negócio foi aumentando, foi meu primeiro bom negócio, vendia palavras, só que a professora também descobriu e, ao fim de dois meses, o negócio acabou, mas eu vivi bem durante um tempo, foram bons chicletes, bons sorvetes. Se tivesse uma ‘lava-jato’ na escola, eu estava perdido”, relatou.

No encontro, Ignácio falou de um dos livros preferidos, “Os olhos cegos dos cavalos loucos”, que ele levou 70 anos para escrever, A história nasceu dos encontros com o avô que tinha uma oficina de fabricação de móveis, onde ele notou que na estante havia uma caixinha vermelha envernizada, até que perguntou o que tinha dentro. O avô deu a sentenciou: “Nunca toque nessa caixa”, o que lhe despertou grande curiosidade:

“ Eu fiquei encatiçado (o que se falava na época), eu fui até minha avó e perguntei ‘vovó o que tem naquela caixa’, ela disse ‘pelo amor de Deus, são os olhos dos cavalos’. Piorou! Aí que eu queria saber. Uma vez a família inteira saiu e eu ‘voei’ para casa deles, peguei a caixinha que estava cheia de bolinhas de gude. Peguei três e saí, fui jogar na rua, perdi, voltei, peguei mais três e perdi, fui perdendo, e perdi todas as bolinhas”, relatou.

 Ao descobrir o sumiço das bolinhas, o avô adoeceu, ficou melancólico, o que causou um drama de consciência para o escritor, já que o avô poderia morrer de depressão. O que, à época, ele não sabia, é que viveria uma das coisas mais marcantes da sua vida.

Em uma reunião da família, o assunto veio à tona, e perguntaram à avó o que significavam aquelas bolinhas. E ela desvendou o mistério:

‘Um dia seu avô ganhou uma revista americana que tinha um carrossel e ele disse - eu vou fazer um carrossel’. Imagina, numa cidade do interior que não tinha energia elétrica.  Depois de cinco cavalos, feitos com madeira tiradas do bosque ele conseguiu fazer um perfeito e num prazo de um ano e meio ele fez os dez cavalos”.

Prontos os cavalos, ele pintou os olhos, mas não era bom pintor, “aí tia Margarida sugeriu comprar bolinhas coloridas. Cada cor de bolinha significava um cavalo (azuis do mar, vermelhas do vulcão, verdes da floresta, amarelas das minas e brancas dos cavalos cegos). Ele colocou as bolinhas e lampiões de querosene e durante fins de semana ia em cidades pequenas. E era uma festa, minha vó disse que ‘foi uma coisa muito feliz’, conta Ignácio Loyola.  Até que um dia um menino com estilingue quebrou um lampião e provocou um incêndio que consumiu o carrossel inteiro. O avô passou a noite recolhendo as bolinhas e as colocou dentro da caixinha, aquilo era uma recordação de momentos muito felizes.

O escritor conta ainda que quando chegou no natal, o avô fez um brinquedo para cada neto e quando chegou a sua vez, o avô disse que lhe daria algo para guardar memórias importantes, fotos, santinhos, bolinhas, e presenteou Ignácio com a caixa vermelha e “com um sorriso irônico, ele sabia que tinha sido eu, e nunca me deixou falar, nem pedir perdão. Passei anos e anos remoendo ‘eu tenho que pedir desculpas’, e uma forma era eu escrever o livro, aos 20 anos eu escrevi a primeira versão, escrevi 15 versões, e, há 3 anos, eu consegui a versão definitiva porque a história me perseguia, no dia que ela foi publicada, eu sonhei com meu avô, ele me perdoou, a literatura serve para isso”, disse emocionado.

 Ignácio falou sobre o último romance, que será lançado no próximo semestre, ainda sem título definido. Há três opções: “Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela”, “Serena loucura” e “E calmamente enlouquecer”. O escritor explicou que nunca conta uma história antes de ser publicada, mas quebrou a regra em Marabá e discorreu um pouco da história.

“Me incomoda muito esse tempo que a gente está vivendo, é um tempo que estamos nos tornamos inimigos uns com outros. O que vai ser da gente?” E diz que o livro, apesar de escrito no futuro, tem muito a ver com o Brasil de agora.

“Esse livro começa com um casal brigando, e ela diz ‘depois de nove anos, tudo acabou’, e aquele homem não aceita, fica desesperado e sai da cidade. Ele começa uma longa viagem de ônibus, onde ele vai descobrir o que é esse país, só que eu coloquei isso no futuro. O absurdo para a literatura não existe, se não García Marquez não teria feito cem nos de solidão. ’

São 380 páginas, é um livro irônico, a sátira, o humor e o horror. “Ele pode significar meu final, mas está todo mundo na corda bamba nesse país. Eu sei que meu tempo é menor, mas eu tenho filho e neto, o que eu vou deixar para eles?!”

 

Por Kelia Santos

Foto Elza Lima