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Concerto festeja Theatro da Paz e Waldemar Henrique

 

Uma joia da arquitetura neoclássica surgida no meio da floresta amazônica, com lustres de cristal, piso em mosaico de madeiras nobres, afrescos nas paredes e teto, dezenas de obras de arte, gradis e elementos decorativos revestidos com folhas de ouro, palco italiano, além de uma acústica perfeita. No dia 15 de fevereiro de 1878, Belém viu se abrirem as portas da maior e mais luxuosa casa de espetáculos da cidade. O responsável foi engenheiro militar José Tibúrcio de Magalhães, autor do projeto arquitetônico inspirado no Teatro Scalla, de Milão, na Itália. Na noite de inauguração, o drama “As duas órfãs” de Adolphe d’Ennery, com acompanhamento da orquestra sinfônica sob a regência do maestro maranhense Francisco Libânio Collas, abriu a temporada de espetáculos que já atravessou 140 anos do Theatro da Paz, história que começou no auge do ciclo da borracha.

 Nesta quinta-feira, dia 15, a noite de gala fica por conta da Amazônia Jazz Band, sob a batuta do maestro Nelson Neves e a participação cantora Simone Almeida como convidada especial do concerto “Celebrando Theatro da Paz e Waldemar Henrique”. É uma comemoração dupla, pois o maestro Waldemar Hernrique faria 113 anos, se estivesse vivo. O evento é uma realização do Governo do Estado do Pará, por meio da Secretaria de Estado de Cultura (Secult) e Academia Paraense de Música.

Desde então, Belém virou rota de grandes companhias de ópera, de teatro, de dança de música, seguindo as tendências da Corte, com sua política de incentivo para construção de teatros em todo o reinado. Artistas de renome nacional e internacional ocuparam o palco do Theatro da Paz, que conheceu momentos memoráveis como a apresentação da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes, e a dança Ana Pavlova. O sucesso foi tamanho que o espetáculo da dança da bailarina russa, ícone da época, realizou cento e vinte seis apresentações. O balé era uma megaprodução. A companhia era integrada por cem integrantes.

            Enquanto a região prosperava com o látex, várias companhias atuaram ali, até que boom econômico chegou ao fim. O teatro também decaiu e, sem mais apresentações, permaneceu quase sempre fechado. O declínio se acelerou por volta de 1908 e 1912, quando sumiram as temporadas operísticas, que voltaram na década de trinta, mas sem a constância com que davam vida à casa.

            Mas veio um novo tempo e novas temporadas culturais. O Festival de Ópera do Teatro da Paz, por exemplo, que no ano passado completou dezesseis anos de criado, com uma programação rica em espetáculos e de renascimento, como lembra o secretário de Cultura, Paulo Chaves, ao dizer que “a ópera desafia o tempo e se retempera na sensibilidade das novas gerações. Onde o novo pode estar na reedição do antigo recriado, tanto quanto o velho pode estar na aventura do que se pretende o novo”.

            Sob a proteção das musas que representam as artes cênicas: comédia, poesia, música e tragédia e da dança, o Theatro da Paz é uma casa que guarda memórias e que atravessou todos os ciclos em busca da modernidade e não mais um elemento de uma distante Belle Époque. Ele transcende a própria forma arquitetônica, mostrando que está mais vivo e gerando cultura, como a da criação da sua Orquestra Sinfônica.

A Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz foi criada em 1996 pela Secretaria de Estado de Cultura (Secult). Teve como titulares da orquestra os maestros Andi Pereira, Barry Ford, Mateus Araujo e Enaldo Oliveira. Desde janeiro de 2011 a orquestra é conduzida pelo maestro Miguel Campos Neto. Já gravou dois CDs ao vivo “Arthur Moreira Lima interpreta Waldemar Henrique”, em 1999 e “Centenário Wilson Fonseca”, em 2012, além de dois DVDs ao vivo, em 2008 e 2015 com a cantora Carmen Monarcha. Em 2012, teve destaque nacional onde recebeu elogios pela execução da ópera Salomé, de R. Strauss. Desde estão, vem tendo seu trabalho reconhecido com muitos elogios por sua atuação nas óperas II Trovatore e Otello, de o Verdi, regidas por Silvio Viegas; Navio Fantasma, de Wagner; Mefistofele, de Bonito e Os Pescadores de Pérolas, de Bizet, Turandot, de Puccini e Don Giovanni, de Mozart, que encerrou a temporada do festival em 2017.

No ano passado, a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz chegou aos 20 anos de criação com reconhecimento nacional da excelência de sua atuação na Amazônia e no Brasil e ganhou destaque nacional na avaliação do crítico Leonardo Marques, da revista Movimento, autor do balanço nacional, superando a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. Como enfatiza Paulo Chaves “a orquestra é a alma dessa casa, dá vida ao teatro em uma harmoniosa convivência entre arquitetura e entre a memória, o que sonoramente expressa a sua história”.

Ao maestro, com carinho – Difícil separar o homem do templo da arte. Isso é o que acontece, ao menos, entre o Theatro da Paz e o maestro Waldemar Henrique, que nasceu no dia 15 de fevereiro de 1905, no mesmo diretor dia em que o teatro foi inaugurado e do qual foi diretor por mais de dez anos.

            Desde cedo, Waldemar Henrique dedicou-se à música, tornando-se um pianista e compositor reconhecido mundialmente pela grandiosidade de sua obra. Depois de passar a infância na cidade do Porto, Portugal, regressou ao Brasil e iniciou-se na música. Começou a estudar solfejo e piano com Nicote de Andrade, 1918, em Belém. Em seguida, fez cursos de violino, harmonia, composição e canto. Deixou mais de 120 composições. Seu primeiro sucesso, “Minha Terra”, é de 1923.

            Waldemar Henrique ingressou no Conservatório Carlos Gomes, em 1829, onde foi aluno de Filomena Brandão Baars e do maestro Ettore Bosio e de Beatriz Simões. Em fins de 1933 transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde estudou piano, composição, orquestração e regência com Barroso Neto, Newton Pádua, Athur Bosmans, Lorenzo Fernandez e Outros. Dedicou-se especialmente à composição, sobretudo de canções, de inspiração folclórica principalmente amazônica, mas também indígena, nordestina e afro-brasileira. Era um homem da arte. Trabalhou em rádios, teatros e cassinos do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, além de haver realizado excursões por todo o Brasil, Argentina, Uruguai, França, Espanha e Portugal. Nessas viagens, apresentava-se com sua irmã, a cantora Mara Costa Pereira (Mara Henrique Ferraz, 1916—1975).

Uma de suas canções mais conhecidas é “Uirapuru”, levada aos palcos e aos discos por cantores e cantoras líricos e pops. Ao completar 80 anos, em 1985, foi homenageado em desfile de escola de samba “Quem são Eles”, em Belém, cidade o homenageou com uma praça e um teatro que leva seu nome, Waldemar Henrique morreu no dia 27 de março de 1995, sem sofrimento, de causas naturais, um mês e meio após ter completado noventa anos de idade.

A Amazônia Jazz Band faz a festa para o Theatro da Paz e para o maestro Waldemar Henrique com as músicas mais conhecidas do compositor como “Foi Boto, Sinhá! ”, “Maracatu”, “Uirapuru”, “Minha Terra e ”Boi Bumbá”, com arranjos especiais de Tynnoko Costa, que irão se juntar a grandes sucessos de outros autores como "The Phat Pac", de Gordon Goodwin; "Baião de Lacan", de Guinga e Aldir Blanc, com arranjo de Nailor Azevedo “Proveta”; e um pout-pourri de "Trem da Onze", "Disparada", "Cidade Maravilhosa", com arranjos do próprio Nelson Neves. E assim, a Amazônia Jazz Band abre a temporada de concertos de 2018.